Antes do dia clarear direito
Já vinha som lá do quintal
Era a serra cantando baixinho
Rasgando o silêncio matinal
Madeira espalhada na oficina
Cheiro bom de coisa por fazer
E as mãos do vô, firmes e certas
Dando forma ao que ia vender
Durante a semana era assim
Trabalho quieto, sem precisar dizer
Na feira das quintas ele chega
Com seu feito virando caminho
Cada banco que sai da mão
Leva a força de um nordestino
Eu pequena no meio das raspas
Brincando no chão sem notar
Que ali nas sobras da madeira
Tinha um mundo pra me ensinar
Toda terça ainda era escuro
Quando ele saía sem reclamar
Levando nos ombros a coragem
E o sustento pra conquistar
Na feira o povo se encontrava
Entre vozes, calor e chão
E em cada peça que ele entregava
Ia junto o seu coração
Na feira das quintas ele chega
Com seu feito virando destino
Cada banco que sai da mão
Carrega a vida de um nordestino
E hoje o som da serra ainda ecoa
Na lembrança que o tempo guardou
Porque em cada banco que ele fez
Tinha o amor que ele deixou