Tem gôsto guardado no tempo
Que volta sem avisar
Num cheiro que cruza o vento
E faz o peito lembrar
Mastruz com leite no copo
Gelado pra refrescar
Que o vô servia sorrindo
Só pra ver a gente melhorar
Vai muito além do que se vê
Tem coisa que é só sentir
É sabor da terra e do chão
De cuidado feito à mão
Cada prato traz de volta
Um pedaço do coração
Paçoca batida no pilão
No peso certo da mão
Farinha, carne e silêncio
Falando mais que razão
Canjica do milho prensado
No moinho a se transformar
Do simples nasce o doce
Que o tempo quis ensinar
Chambaril em dia de festa
Perfume solto no ar
Vovó mexendo com calma
Como quem sabe esperar
Café coado no pano
Clareando o despertar
Carne de sol com feijão verde
Chamando o povo a sentar
Mingau de farinha no fogo
Quentinho pra acalentar
Na colher mora um carinho
Difícil de explicar
Não é só mesa posta
Nem só o que se come ali
É a vida em forma de afeto
Que insiste em não partir
É sabor da terra e do chão
Laço vivo de geração
Quem prova entende em silêncio
O que não cabe em explicação
E mesmo longe, em outro lugar
Quando a saudade apertar
É nesse gosto antigo e simples
Que a vida aprende a voltar