Há uma fenda no mundo
Por onde a podridão se infiltra
Entre flores de carne e sangue
Seus lábios sorvem a ferida aberta
Suas mãos costuram a pele coriácea
Usando pinças revestidas de queratina
Vacilamos, à beira do abismo
Engasgados por luto e impregnados por fúria
Emitimos gritos tão desafinados
Quanto nossos sonhos
Nos restos compostos de ossos e musgo
Frondes se proliferam em suas órbitas
Líquens escrevem sobre o crânio escuso
A liturgia morosa dos mortos
Neste ocaso
Mais suave que o sono
O horizonte
Coroa o esquecimento
Em sendas quentes e malditas, vi
Coisas que nunca mais quero rever
Formas estranhas que o delírio, em si
Não me permite lembrar sem tremer
Deixo ir
Meu último suspiro
Engolido
Pela chaga da morte
Matiz da omissão que sela a partida
Traga-me o eco até que ele se vá
Deixe-o suspirar sua fé destemida
Profissão que se dissipa no ar
Somos pouco além de conchas vazias
Como grãos de areia ou gotas de mar
O equilíbrio doce das coisas findas
Carne feita de poeira estelar
O sangue podre da carnificina
O horror ondulante do rio do inferno
As trevas que os raios não iluminam
Espalham cinzas com um assopro débil
Costumávamos amar a nós mesmos
Costumávamos amar uns aos outros
Mas toda indolência cobra seu preço
Todo castigo fomenta o desgosto
Santo é o nome do corte que escoa
Santo é o nome da noite sem fim
O brilho da navalha imorredoura
O fluido vital que encobre o marfim
Livro-me, agora, de todo perigo
Do desenlace da alma e do corpo
Das armadilhas de meus inimigos
Da sede voraz nos olhos do corvo
Você não me machucou
Você não me machucou
Nada pode me machucar
Nada pode me machucar
Nada pode me parar agora
Nada pode me parar agora