No quarto branco de um hospital
O tempo andava devagar
Um choro baixo, febre no ar
Um sopro frágil a lutar
No berço ao lado, olhos cansados
Um velho pronto pra partir
E entre dois mundos tão calados
Alguém chegou sem se ouvir
Ela vestia o silêncio
Carregava o fim nas mãos
Mas naquela noite hesitou
Diante de dois corações
Foi o dia em que a morte errou sem querer
Tropeçou no caminho sem perceber
Era pra ser despedida em paz, sem dor
Mas levou o começo, deixou o amor
E o mundo gritou sem entender
Por que a luz teve que se apagar
Foi o dia em que a morte errou
E não conseguiu voltar atrás
Ela olhou pra criança ardendo
E algo nela vacilou
Não hoje, pensou em silêncio
E pro outro lado caminhou
Mas o fio do tempo é frágil
Mas a vida gosta de enganar
Num toque errado, um passo falho
Fez o que não devia fazer
Um sopro frio atravessou
O peito que ainda aprendia a bater
E quando a verdade chegou
Era tarde pra escolher
Foi o dia em que a morte errou sem querer
Confundiu os caminhos sem perceber
Era um adeus que o tempo já aceitou
Mas levou quem ainda nem começou
E o choro cortou o amanhecer
Dois corações a se despedaçar
Foi o dia em que a morte errou
E não conseguiu se perdoar
Ela tentou voltar atrás
Desfazer o que já foi
Correu contra o próprio fim
Mas o tempo não se repõe
Quando voltou, já era tarde
Silêncio no leito vazio
Nos braços dos pais, só saudade
E um adeus frio
Seguiu a trilha da despedida
Até a terra se fechar
Gritou no vento por vida
Mas ninguém podia escutar
Foi o dia em que a morte errou sem querer
E tentou devolver o que não pôde ter
Mas a vida já tinha se despedido ali
E o amor teve que aprender a existir sem si
E mesmo eterna, ela chorou
Pela primeira vez sentiu falhar
Foi o dia em que a morte errou
E nunca mais quis acertar
Desde então, quando ela vem
Olha duas vezes antes de tocar
Mas naquele dia
Nem o fim conseguiu se explicar