Se ouso encarar minha dor
Devo abrir mão do que é possível
E ainda assim é mais justa a troca
Do que dobrar joelhos para o invisível
E sei, não é simples carregar seu próprio fardo
O peso do mundo é bem maior, assim, sem farsa
E tende a mostrar que por detrás dessa carcaça
Há terços culpa, de crime e de erro e não há comparsa
Porque sua crença é como um abraço morno
Que aquece imprecisa em todos seus dias de luta
Mas não faz da dor, essa mordaz filha da puta
Ser paz sem nos exigir da vida outro suborno
Se sabem de tudo e enxergam na alma
Porque não há nada que estanca este corte?
E se me prometem a vida pós morte
Que mal de chegar antes de um novo trauma?
Lidar com a fé é somente inverter a verdade
Olhar-se no espelho e sorrir como idiota
Chamar de batalha a própria e única derrota
E enxergar beleza onde só há fealdade
E, então, tudo o que parece lhe tornar melhor
É exatamente aquilo que te faz mais manso
Mais obediente, mais dócil esperando por descanso
Com medo daquilo que te deixa bem mais só
Porque sua crença é um pacote de alertas
Que avisa insistente sem nunca dizer adeus
Enquanto constrói pra si um invisível Deus
Essas divindades, orixás e outros profetas
Mas se sabem de tudo e enxergam na alma
Porque não há nada que estanca este corte?
E se me prometem a vida pós morte
Que mal de chegar antes de um novo trauma?
Eu não preciso de consolo (não)
Não preciso de promessa futura (e vazia)
Não preciso de juízes no céu (nem você)
E contando meus pecados (que eu sei)
Preciso apenas da verdade nua (e agora)
Da coragem de estar sozinho (e comigo)
Da liberdade de criar meu próprio sentido (só meu)
Sem pedir permissão ao inexistente
Mas se isso me faz desgraçado (que seja)
Que eu seja desgraçado de olhos abertos
Que eu caia sem rezar no caminho
Que eu morra sem esperar salvação
Pelo menos terei vivido de fato
Sem trocar meus desejos pela eternidade
Sem fingir interesse em liturgias medíocres (amém)
Sem me anular para esboçar dignidade