Tem uma taça na mesa
Que ninguém quis guardar
Desde aquela sexta-feira
Ela continua no mesmo lugar
O guardanapo dobrado
O vinho que o tempo oxida
A janela aberta pro asfalto
Como quem vê a vida
A casa é um palco mudo
Que só aprende a esperar
Tem silêncio que sabe o caminho
E a audácia de voltar
Tem uma taça esperando mais do que eu
Guardando o tom do batom que era teu
A porcelana eu lavo, o chão eu varro, tento esquecer
Mas a taça é a única louça que eu não ouso recolher
O relógio perdeu o costume
De correr depois das seis
A solidão cabe num volume
Mas a mesa insiste pra dois
A rolha deitada na gaveta
O abridor que a poeira cobriu
Até o corpo denso do vinho
Percebeu a alma que partiu
Algumas histórias não terminam no fim
Ficam presas num canto, embriagadas em mim
Metades que o tempo não consegue curar
A cadeira vazia, a luz da cozinha
E a mancha de vidro que eu não quis quebrar
Tem uma taça esperando mais do que eu
Guardando o tom do batom que era teu
Se a saudade for o único chão pra pisar
Não precisa dizer nada
É só a gente se servir e recomeçar