Ela dobra a mala vazia
Guarda no alto, perto do telhado
Como quem deixa a partida
Num canto ainda não iluminado
A varanda é um porto suspenso
Com morro e antena em vez de mar
Nos fios, os postes acendem
Feito navio que esqueceu de zarpar
No espelho, um rosto cansado
Aprendendo a envelhecer
Entre planilhas, compromissos
E um susto miúdo de enlouquecer
Ela acende uma vela pequena
Não por crença, só por calor
A chama risca sombras na parede
Que lembram uma dança que não dançou
E ela pensa: Tanto curso, tanta tese
Tanto plano pra me assegurar
Ainda assim, na hora em que o prédio emudece
Eu me sinto à deriva no mesmo lugar
Meu cais é esse apartamento
Onde os barcos são pensamentos
Que chegam sem horário, sem papel
Eu olho a serra em contorno escuro
E peço ao vento algum seguro
Um norte escrito num canto do céu
Mas o tempo passa e, quase sempre
Eu só aprendo a não doer tão cruel
Na estante, livros modernos
Falando de escolha e direção
Ela marca de lápis as frases difíceis
E esquece de marcar o próprio coração
Na pia, a água cai em silêncio
Como relógio que perdeu razão
Ela desliga, seca as mãos
Num pano bordado de recordação
E ela pensa: Tanta teoria sobre o sujeito
Sobre esse eu que precisa brotar
Mas ninguém me ensinou como acolher
Essa parte sem brilho que insiste em ficar
Meu cais é esse apartamento
Onde os barcos são pensamentos
Que encostam, prometem e somem no final
Eu olho a cidade, esse mar impaciente
E peço coragem, docemente
Pra me tratar com menos mal
Se a vida é onda, que eu aprenda
A atravessar meu próprio temporal
Ela apaga a vela, fecha a cortina
Mas deixa a frésta pra Lua entrar
Porque, por mais que a melancolia sente ao lado
Sempre tem um pedaço de amanhã querendo ancorar