E assim me querem entre o sim e não mais canalha
Cumprindo com rigor esse fajuto e falso pesar
Por hora, esquecem que o que sangra aqui é só mortalha
Jamais um passe livre que autoriza alguém entrar
E a vida se vende em começo, meio e fim
Mas te entrega apenas a desgraça e o impossível
Era mesmo necessário que eu ficasse visível
Justamente quando eu nem morava mais em mim?
As coisas passam por nós, e esta passou por cima
E enquanto isso passava eu me senti mais só
Me diz se estava aqui ou se tua obra-prima
Foi mentir que era luz no abismo ao meu redor
Olhar pra dentro e se sentir desinteressado
É como estar perdido e nu, sem reagir
Ver parte dos seus planos um por um rasgados
Enquanto vi o caos de bolso se extinguir
As emoções não seguem direção
Se dobram, dançam, fogem da razão
Voltam em espiral pra mostrar
Que cura exige fé e então vou reclinar
Porque cura é recomeço e nem sempre vale
Tentar um outro ciclo e planejar também
Se a dor que é sua é sua e dos outros cabe
No mesmo espaço onde não habita alguém
Aprendi quem são os meus e acho uma pena
Que a razão me diga apenas pra trancar a porta
Mas é que neles vive o meu maior dilema
De aceitar que ninguém, além de mim, se importa
É estranho explicar que até quem era bom
Num arroubo impensado foi um idiota
Ao pensar que podia ler minha melhor nota
Com o talento frouxo de um abiã sem dom
E o que fazer quando tudo ruir?
Como assim vocês sabem ao certo
Se viver é recomeçar sem querer
Eu só que não quero quem não sinto perto
Porque até quem foi necessário
Precisou figurar entre os que eu não escuto
Achou de bom tom me exigir viver o luto
Cobrar que foi negado como fosse um relicário
Ao perder de vez essa versão de mim
Eu também perdi o amor que sempre foi meu guia
Por isso, não me peça nessa galhardia
Seguir com este pedaço que restou em mim
Não esperem que eu vá compartilhar
Eu mal abri a porta e enxerguei só vazio
Mesmo sem afluente, até tentei ser rio
Mas seco, assim, não é possível que eu me torne mar
Porque mar é recomeço e por isso transborda
É margem e é tempestade num dia sombrio
Mas se quem me navega me tirou o brio
O que fazer com tanto nó na mesma corda?
Aprendi quem são os meus e é um desperdício
Deixá-los juntos a quem me soa sempre igual
Mas é que eles também me querem reinício
Sem nunca perceber que não saí do final